Alta miopia: descolamento de retina e lentes de contato.
Professor Sergey Cusato Jr, Mariana Tramontin
IBTPLC
Controle, miopia, progressão, lentes, contato
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Article contents

1. Introdução
A miopia surgiu como um problema de saúde pública
mundial e é uma das cinco condições oculares identificadas
como prioridades imediatas pela Iniciativa Global
da Organização Mundial da Saúde para a Eliminação da
Cegueira Evitável. Nos países desenvolvidos a miopia é
uma condição comum que requer tratamento, com uma
prevalência em adultos variando de 15% a 49% (HUANG
et al, 2016).
Conforme Huang et al (2016) a miopia mesmo as consideradas
baixas (<-3.00) aumenta consideravelmente
o risco de aparecimento doenças oculares, e está sendo
comparada a hipertensão e ao tabagismo. Segundo Holden
et al (2016) a questão mais crítica que envolve a miopia éo aumento da incidência das altas miopias, que no decorrer
do seu desenvolvimento incrementam a ocorrência de
patologias oculares, podendo surgir cataratas, glaucoma,
descolamento de retina e degeneração macular pela miopia,
essas, podendo causar perca irreversível da visão.
Há um tempo a miopia era frequentemente associada a
pacientes com descendência asiática. No entanto um estudo
desenvolvido pela Universidade do Reino Unido obteve
como resultados prevalência da miopia em asiáticos de
53.4% e em brancos de 50%. Mostrando que a prevalência
da miopia não está tão somente ligada a questões
genéticas (HUANG et al, 2016).
Segundo a categorização de cegueira e deficiência
visual pela Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente
existem 285 milhões de pessoas no mundo com deficiência
visual, sendo que destas, 39 milhões estão cegas
e 246 milhões têm visão reduzida. As causas de deficiência
visual ao redor do mundo podem ser vistas na figura 1.
Catarata e erros de refração já são responsáveis por 75%
do número total. O que pode ainda mais aumentar com
o incremento da ocorrência de patologias desencadeadas
por miopia (CUSATO e LAMDIN, 2007).
as3.png
Figura 1. Causas da cegueira no mundo.© 2015 London School
of Hygiene & Tropical Medicine. This work is licensed under a
Creative Commons Attribution‐ NonCommercial‐ShareAlike 4.0
International license (CUSATO E LAMDIN, 2017).
Atualmente a miopia acomete apoximadamente 25% da
população, tendo em vista esse número alto de incidência
começa a ser considerado um problema de saúde pública,
pois suas consequências acabam por onerar a economia dos
países. Com base nesses dados é de extrema importância à
preocupação com a prevenção da miopia e ou o retardo do
seu desenvolvimento (GONZÁLEZ et al, 2015).
O descolamento da retina é a separação da retina neurosensorial
do epitélio pigmentar da retina subjacente.
Na saúde, o potencial "espaço sub-retiniano" entre essas
duas camadas é fechado pelo epitélio pigmentar da retina
que bombeia ativamente o fluido através da retina e na
coróide. A matriz extracelular proporciona adesão adicional.
O descolamento da retina ocorre quando as forças de
ligação da retina são superadas e o fluido se acumula no
espaço sub-retiniano.
Um dos fatores que levam o paciente a perda de visão
muitas vezes sem volta é o descolamento de retina por
crescimento axial ocular como podemos observar na figura
2.
as4.png
Figura 2. Desprendimento retinogênico regmatogênico. O ácido
hialurônico no vítreo mantém a água e mantém as fibrilas de colágeno
insolúveis dispersas na matriz de gel. A - com o envelhecimento,
as mudanças no ácido hialurônico causam bolsas de vítreo
liquefeito, deixando as fibrilas de colágeno se condensam em feixes
de fibras maiores, que aparecem como flutuadores crônicos.
B-bolsos de coelho líquido vítreo para formar espaços maiores. Os
defeitos no córtex vítreo deixam o líquido no plano entre o córtex
vítreo e a retina, iniciando o desprendimento vítreo posterior. C - o
vítreo que colapsa exerce tração mecânica na retina e no nervo óptico,
que pode ser percebido como luzes intermitentes; A condensação
do vítreo ao redor do nervo óptico pode aparecer como um
flutuador em forma de crescente (anel Weiss). A tração vítrea pode
levar à avulsão dos vasos sanguíneos ou à formação de quebras de
retina. D-fluido entra no espaço subretiniano através da ruptura da
retina e desenvolve-se o desprendimento da retina (BMJ, 2017).
Um dos meios ópticos mais aceitos para protelar o desenvolvimento
e corrigir a miopia são as lentes de contato
do tipo geometria inversa. A ortoqueratologia age
alterando o formato da córnea e diminuindo a angulação
dos raios periféricos. Muitos estudos já confirmaram que
o comprimento axial do olho em pacientes que usam as
lentes de geometria inversa é menos incrementado quando
comparado a pacientes que utilizam lentes de contato
gelatinosas. Os raios vindos da periferia interferem diretamente
no aumento da miopia. O que justifica cada vez
Contatologia
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mais a correção óptica de pacientes miópicos por meio de
lentes de contato com desenhos especiais para o controle
da miopia (GONZÁLEZ et al, 2015).
Relato de Caso
Paciente, masculino, 44 anos, possui miopia desde os
12 anos de idade de -13.00 em ambos os olhos. Em 2013
o paciente reportou que teve perda progressiva de visão
e que em 2014 resultou em descolamento de retina em
ambos os olhos. Não reporta antecedentes pessoais em
nível sistêmico.
1ª Consulta
Março/2017
Motivo da consulta:
Apresenta-se com queixas de diminuição de visão com
óculos. Está utilizando óculos, que não proporciona uma
visão adequada para realizar as tarefas cotidianas.
Achados clínicos:
Os exames mais relevantes são apresentados na tabela
1.
as6.PNG
Com os resultados obtidos fizeram-se as provas correspondentes
e as medidas da lente final do paciente que
podem ser observados na tabela 2.
as7.PNG
Com essa lente o paciente obteve uma acuidade visual
de 20/25 OD e 20/60 OE E J1 AO em visão de perto.
Tipo de Lente de Contato
Lente de contato rígida Asférico XO apresentado na
figura 3
as5.PNG


2. Discussão
Como reportado no caso clínico, o paciente apresenta
uma miopia malígna desde os 12 anos de idade que conforme
os estudos de Huang et al (2015) e Holden et al
(2016) acaba por desencadear alguma alteração patológica
ocular. Nesse caso, aos 44 anos o paciente apresentou
descolamento de retina que foi estagnado com aplicações
de laser. Por se tratar de um paciente em meia idade de
vida, a questão que nos preocupa é a progressão da miopia
que poderá desencadear outras alterações patológicas
e ou incrementar o descolamento de retina.
Vários estudos utilizam drogas para retardar os feitos
e baixar a progressão da miopia. Outros tratamentos
físicos, como lentes com adição e a ortoqueratologia, são
ferramentas utilizadas para a correção de miopia. A ortoqueratologia
é um tratamento não cirúrgico que tem como
objetivo moldar a córnea e assim diminuir a miopia em seu
comprimento axial.
As informações sobre a estimulação dos raios vindos
da periferia da retina que acabam por estimular o crescimento do olho, ainda é a novidade que está promovendo
uma mudança de atenção para a miopia e alertando os
profissionais para o controle e cuidado com os pacientes
com esse tipo de erro refrativo.

3. Conclusão
A epidemia da miopia está desencadeando alterações
patológicas importantes a nível ocular nos seres humanos.
Uma das condições associadas a isso é a evolução do
ser humano que teve há aproximadamente 15 anos seus
hábitos visuais alterados. Passando de uma visão de longe
para um uso contínuo da visão de perto pelas excessivas
atividades a curta distância. Acredita-se que esse seja um
fator crucial para o aparecimento das patologias em pacientes
jovens.
As questões ambientais e a alta demanda pela visão
de perto está aumentado consideravelmente às altas miopias
e a sua progressão rápida. O estudo de caso abordado
salienta a decorrência de complicações patológicas
em pacientes míopes patológicos. Com base no acompanhamento
de vários pacientes míopes e tendo em vista a
evolução gradativa do quadro miópico em geral, deve-se
levar em conta o uso das lentes de contato com geometria
inversa que visa minimizar os danos dos raios que incidem
da periferia da retina e que por hora veem a estimular o
crescimento do olho e por consequência tornando-os mais
míopes.

REFERÊNCIAS
CUSATO, J. S. e LAMDIN, L. CEGUEIRA GLOBAL E NO BRASIL. Dis-ponível em: http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?i=es-
ES&idArtigo=57. Acesso em 16/06/2017.
Desprendimento retinogênico regmatogênico. Disponível em:
http://www.bmj.com/content/336/7655/1235. Acesso em
26/06/2017.
GONZÁLEZ, M. M. J. et al. Changes in peripheral refractive profile
after orthokeratology for different degrees of myopic. CURRENT
EYE RESEARCH. ISSN: 0271-3683/2015.
HOLDEN, A. B. et al. Global Prevalence of Myopia and High Myopia
and Temporal Trends from 2000 trought 2050. AMERICAN ACADEMY
OF OPHTHALMOLOGY. ISSN: 0161-6420/2016.
HUANG, J. et al. Efficacy Comparison of 16 interventions for Myopic
Control in Children. AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY.
ISSN: 0161-6420/2015.
Professor Sergey Cusato Jr OD MSc Vis Sci, FIACLE, FIBTPLC, ALOCM
Diretor do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de
Contato.
Membro do Bord da Academia Latino Americana de Ortoqueratologia e
Controle da Miopía. F.I.A.C.L.E International Association of Contact Lenses
Educators.
MBCLA British Contact Lens Association. MCLSA Contact Lens Society
of America. MSLS. Scleral Lenses Association, MOAA Orthokeratology
Academy of America.
Mariana Tramontin O.D MembroIBTPLC Bacharel em Optometria e Membro
do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato.
 

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