CERATOCONE GLOBOSO E ADAPTAÇÃO DE LENTES RGP XO
Bruno Camargos de Souza e Sergey Roberto Cusato Jr
Ibtpcl, YANOF, SPALTON
Optometria, Cuidados Primários, Lentes de Contato
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Conteúdo do artigo

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Prof Sergey Cusato Jr OD MSc FIBTPLC                                               

                             
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Bruno Camargos de Souza OD Member do IBTPLC

Ceratocone globoso e adaptação de lentes RGP XO


Introdução

   A córnea é um tecido transparente e avascular, possui em média 1mm de espessura na periferia, 0,8 mm no centro, 11,5 mm na vertical e 12 mm na horizontal, em adultos. Funciona como uma “janela” refringente e protetora, através da qual passam os raios de luz em direção à retina. Consiste anatomicamente em cinco camadas: epitélio, camada de Bowman, estroma, membrana de Descemet e endotélio.

   Ectasias corneanas, de uma maneira geral, caracterizam-se por um afinamento do estroma corneano e não estão relacionadas a nenhum processo inflamatório óbvio. Dentre as ectasias podemos citar: o ceratocone globoso, degeneração marginal pelúcida, ceratocone oval e ceratocone central.

    O ceratocone é uma doença corneana degenerativa não inflamatória, bilateral, simétrica e progressiva. Caracteriza-se pelo afinamento central, protusão apical e astigmatismo irregular, possui vários graus de ectasias e gera uma redução da acuidade visual. Como consequência ao afinamento e a protusão, a córnea adquire a forma cônica.

    A degeneração marginal pelúcida é uma variante do ceratocone incomum, mas não rara. Caracteriza-se pelo fato de apresentar uma protusão cônica que ocorre na periferia da córnea.

    O ceratocone globoso por sua vez, também chamado de ceratoglobo, é uma condição extremamente rara, bilateral e caracterizada por uma protusão globosa (acomete 75% da córnea). Apresenta um diâmetro normal ou aumentado e com a espessura do estroma corneano de um terço a um quinto da normal, comprometendo mais próximo ao limbo. Em geral, o afinamento é maior na periferia ou na porção média da periferia da córnea. 

    Apesar de ter sido descrita em pacientes portadores de doença graves e na síndrome de Ehlers-Danlos de tipo VI, esta condição está quase sempre presente ao nascimento e tende a apresentar um caráter não progressivo, sendo que hidropsia aguda pode ocorrer assim como perfuração corneana.       O tratamento do ceratoglobo com lentes de contato é difícil, indicando-se nestes casos lentes esclerais ou rígidas gás permeável.

    Este artigo tem por objetivo descrever um caso clínico de ceratoglobo, caso pouco relatado na literatura mundial. 

Caso Clínico

    Paciente sexo feminino, 23 anos, encaminhada para atendimento clínico optométrico no IBTPLC em julho de 2014, relatou ter passado por várias avaliações clínicas sem sucesso em busca de um diagnóstico preciso sobre sua condição visual. Durante 2 anos fez várias avaliações, inclusive em um hospital de São Paulo no qual se suspeitou de atrofia de nervo óptico pela condição da baixa acuidade visual.

    A Paciente relata ter baixa AV, cefaleia e ser usuária de óculos desde a infância.  Há três anos usa LC, sem antecedentes sistêmicos, não faz uso de medicamento, porém seus pais fazem uso de medicamentos para HTA e Diabetes. Na tabela abaixo podemos observar os dados clínicos obtidos.

   Tabela 1: Dados clínicos coletados na tomada de AV e provas clinicas

Snellen 6 (m)

Olho Direita

Olho Esquerdo

Sem Correção

Percepção de luz

Percepção de luz

Shirmer

5/15

5/20

BUT

10 seg

12 seg

PIO

14

14

Ceratometria

OD 52,75X170

OE 53,25X40

Biomicroscopia

Strias++

Strias++

Refração

OD +13,00-100x150

OD +12,00ESF 20/40.


    Na tomada de acuidade visual com tabela de Snellen, constatou-se: S/C a percepção de luz a 6 metros em AO.

    Nos testes lacrimais foram encontrados: Schirmer I, OD 5/15 OE 5/20. O BUT foi realizado instilando fluoresceína 2%, OD 10seg e OE 12seg.  A pressão intraocular (PIO) constatado foi de 14mmHg em AO, medida com tonômetro de pálpebra Diathera (escala Maklakov '10).

    Os achados na ceratometria com miras perfeitamente nítidas foram: no OD 52,75X170 OE 53,25X40,.

    Na biomicroscopia com lâmpada de fenda Haag-Streit não foi encontrada nenhuma estria estromal como se pode observar na figura 1.

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    O fundo de olho foi observado com lentes de Volk 78 na lâmpada de fenda, tendo como resultado FO normal sem alterações em AO. Com oftalmoscópio direto foi observado o FO com lentes +12.00D, e assim como no resultado obtido com as lentes de Volk 78, não havia alteração. Assim, descartou-se o diagnóstico de atrofia do nervo óptico, suspeita do profissional que atendeu a paciente antes de chegar ao IBTPLC.

    Para o exame de refração se utilizou a técnica da retinoscopia dinâmica obtendo os seguintes resultados: OD +13,00-100x150 20/40 OE +12,00ESF 20/40.

    A topografia foi realizado com o uso de um topógrafo Eyetec CT 2000, mapa axial, mostra um mapa topográfico com resultados mais precisos e no qual se pode ter certeza do diagnóstico da paciente. Neste exame foram observadas curvaturas acima de 50D com variações menores que 1D em todas as zonas topográficas. Esses dados caracterizam um ceratoglobo ou ceratocone globoso (Figura 2 e 3).


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CONCLUSÃO
    Com os achados clínicos prescreveu-se para a paciente o uso de lentes especiais. Usando-se como filosofia de adaptação: o paralelismo e lentes asféricas de XO.
    Na adaptação da lente houve uma grande descentração nasal em ambos os olhos causando grande preocupação, pois esta alteração não era esperada pela comunidade científica. 



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    Após uma junta clínica optométrica, decidiu-se adaptar uma lente esférica de médio diâmetro em conjunto com a técnica de ajuste, resultando em uma maior estabilidade.

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Lente final

OD

CB 53,00 8,6 ESF +12,00 XO AV/LC 20/08

OE

CB 53,00 8,6 ESF +12,00 XO AV/LC  20/08



     Nesse caso apresentado constatou-se a importância de uma avaliação completa e a dificuldade encontrada pelos profissionais no tratamento e controle de córneas distróficas com ceratoglobo. Esta lesão acomete toda a córnea e pode se romper a qualquer minuto caso o profissional não respeite os limites da patologia.

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    Este caso também demonstrou a importância do diagnóstico preciso e reforçou que nós profissionais optometristas não podemos e nem devemos subestimar a capacidade dos pacientes e da patologia, sempre levando em conta o diagnóstico, prognóstico e diagnóstico diferenciado para uma melhor aplicação de técnicas e adaptação de lentes de contato.


Prof. Sergey Cusato Jr. O.D Msc FIBTPLC e FIACLE
Diretor do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato. Responsável pela cadeira técnica da disciplina de Contatologia Especial, do Curso de Master na Unuversidade do Paraguai de Lentes de Contato e Cuidados Primarios F.I.A.C.L.E International Association of Contact Lenses Educators. MBCLA British Contact Lens Association. MCLSA Contact Lens Society of America. MSLS. Scleral, MOAA Orthokeratology Academy of America

Bruno Camargo de Souza Bacharel em optometria pela universidade UNC especialista em cuidados primarios e diagnostico diferenciado em patologia ocular combinada, Se especializando e Lentes de Contato no Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato



Referencias Bibliográficas.

http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=27 2013

YANOFF, Myron; DUKER, Jay S. Ophthalmology. Third edition. Mosby, 2008.

SPALTON, David J. et al. (Atlas de) Oftalmologia Clinica . 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

KANSKI, Jack J.; BOWLING, Brad. Oftalmologia Clinica. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier - Campus, 2012.

 

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