USUÁRIO DE CORREÇÃO ÓPTICA EM CERATOCONE
Prof Sergey Cusato Jr e Ketlin Haas
IBTPLC
Optometria, Lentes de Contato, Óculos, Especialização
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Conteúdo do artigo

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                                            INTRODUÇÃO


    O ceratocone é uma patologia corneal progressiva, não inflamatória e causa distrofia de córnea e afinamento conhecido como ectasia (CUSATO, 2012).

    Esta condição se caracteriza pelo afilamento e protrusão da córnea central e/ou paracentral, que progressivamente assume a forma cônica. O afinamento progressivo, protrusão e cicatrização central estromal resultam em astigmatismo irregular, condição de diminuição da acuidade visual. A incidência da doença varia de 20 a 230 por 100.000 habitantes (BECHARA; KARA-JOSÉ et al., 1997).

    Conforme Whitcher; Riordan-Eva (2011), o ceratocone é uma doença degenerativa bilateral incomum, herdada como traço autossômico recessivo ou dominante que se manifesta na segunda década de vida, ou seja, na adolescência, acometendo todas as raças.

    A etiologia do ceratocone é desconhecida. Há diversas possibilidades etiológicas que incluem mudanças físicas, bioquímicas e moleculares no tecido corneano, entretanto, nenhuma teoria explica completamente os achados clínicos e as associações oculares e não-oculares relacionadas ao ceratocone. É provável que o ceratocone seja o resultado final de diferentes condições clínicas como as já conhecidas associações com doenças hereditárias, doenças atópicas, certas doenças sistêmicas, uso prolongado de lentes de contato e doenças do colágeno (URBANO et al., 2002).
    O principal sintoma dos pacientes com ceratocone é baixa acuidade visual (AV) e/ou visão distorcida. Podem ocorrer também a presença de fotofobia e irritação ocular. 

    Os sinais incluem: córnea em formato de cone, pregas lineares estreitas na parte central da membrana de Descemet (estrias de Vogt) - que são patognomônicas, um anel de ferro em torno da base do cone (anel de Fleischer). 

    Na retinoscopia apresenta um reflexo irregular ou em forma de tesoura (WHITCHER et al., 2011). Em casos mais avançados, a deformação crônica da córnea origina uma convexidade da pálpebra inferior em infraversão, denominada sinal de Munson (BECHARA et al., 1997).
    O tratamento clínico do ceratocone depende da severidade do caso, mas o uso de lentes de contato (LC) rígidas ainda é o principal recurso óptico usado, principalmente nos casos mais avançados. Estas lentes proporcionam boa visão nos estágios iniciais pela correção do astigmatismo irregular (BECHARA et al., 1997) (LEWS et al., 1994).

    Existem outras lentes especiais disponíveis, como as lentes gelatinosas especiais para ceratocone, mas os resultados com estas lentes são bastante limitados a casos incipientes e pacientes intolerantes ao uso de Lente de Contato Rígida Gás Permeável (YAMAZAKI et al., 1990).

    A topografia corneana computadorizada é um método eficiente e sensível para diagnóstico e acompanhamento das alterações corneanas em usuários de lente de contato (WILSON et al., 1990).

    Estima-se que 74 a 87% dos pacientes com ceratocone obtenham correção satisfatória do erro refracional pelo emprego de recursos ópticos (CUNHA; LIMA, 1997). 

    Conforme Sinjab (2012) o Ceratocone pode ser classificado conforme as medidas ceratométricas, considerando o meridiano mais curvo: 

a) Incipiente (Grau I): até 47,00 D
b) Moderado (Grau II): acima de 47,00 D até 52,00 D
c) Avançado (Grau III): acima de 52,00 D até 60,00 D
d) Severo (Grau IV): acima 60,00 D

Conforme a morfologia:

a) Cone redondo (Nipple Cone). Um pequeno centro íngreme ou cone paracentral.
b) Cone Oval (Oval Keratoconus). Um cone elíptico íngreme que é geralmente deslocado inferotemporal.
c) Cone globoso (Globus Cone). Um grande cone íngreme envolvendo mais de 75% da córnea.

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Figura 1: Nipple Cone


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                                                                       Figura 2: Oval Keratoconus

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Figura 3: Globus Cone

    O objetivo deste estudo é verificar a possibilidade do uso de correção óptica em paciente com ceratocone.


RELATO DE CASO

    Paciente do sexo feminino, 26 anos, portadora de ceratocone, procurou atendimento optométrico no IBTPLC em 2008, relatando que aos 14 anos a sua visão começou a embaçar. Desde então passou por 8 avaliações clínicas, nas quais foram prescritas correções ópticas por meio de óculos com lentes espessas não obtendo diagnóstico preciso. 

    A paciente relata ser atópica não podendo utilizar lentes de contato. Na família não existem casos de ceratocone, mãe apresenta presbiopia, pai sem problemas visuais.

    Ao primeiro exame, a acuidade visual medida com a Tabela Snellen sem correção era de 20/100/6 em OD e 20/200/6 em OE, utilizado o PH furo estenopeico a AV melhora para 20/40/6 OD e 20/50/6 OE. 

    Na propedêutica de vias lacrimais a paciente apresentou Schirmer I, OD 5/30mm e OE 5/25mm. A pressão intra-ocular PIO do OD 16mmHg OE 13mmHg e o fundo de olho normal em AO, visto com lente de -15D do oftalmoscópio direto. Um reflexo em tesoura foi observado na retinoscopia estática de AO, teste de Bruckner positivo para ceratocone avançado. Titimus Test com correção 80% de estereopsia AO. Todos os testes foram realizados sem anestésico.

    Na biomicroscopia utilizando lâmpada de fenda Haag- Streit identificou-se: sinal de Munson positivo com córnea bastante abaulada, estrias de Vogt e sinais de Fleischer em AO, porém predominante no OE. No BUT (Break up time) foi instilado fluoresceína a 2% e contagem do tempo de ruptura do filme lacrimal, foi de 6 seg OD e 5 seg OE.

     A Ceratometria apresentou miras distorcidas em AO, OD 48X180 e OE 52.75X180.

     A topografia computadorizada feita no aparelho Eyetec CT 2000, em mapa axial, mostra um gráfico topográfico indicativo de ceratocone avançado (Grau III) no OE com curvatura de 57,88X57,80; e a topografia corneana do OD revela uma curvatura de 52,09X52,90 (Figuras 4 e 5), ainda conforme a topografia da paciente observou-se um ceratocone tipo oval cone.

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Figura 4: OD Topografia computadorizada de córnea
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Figura 5: OE Topografia computadorizada de córnea

Tabela 1: Resultados clínicos na tabela1

RESULTADOS CLÍNICOS

OD

OE

AV VL SC

20/100

20/200

AV VL SC PH

20/40

20/50

AV VP SC

J4

J5

SCHIRMER I

5/30 mm

5/25 mm

PIO

16 Mmhg

13 Mmhg

TITIMUS TEST

80% de estereopsia

80% estereopsia

BRUCKNER

Positivo para ceratocone

Positivo para ceratocone

BIOMICROSCOPIA

Sinal de Munson, estrias de Vogt e sinais de Fleischer

Sinal de Munson, estrias de Vogt e sinais de Fleischer

BUT

6 seg

5 seg

CERATOMETRIA

OD 48X180

OE 52.75X180

TOPOGRAFIA

52,09X52,90

57,88X57,80

CLASSIFICAÇÃO

Grau III avançado

Grau III Avançado

MORFOLOGIA

Oval Keratoconus

Oval Keratoconus




CONCLUSÃO

    Mesmo com achados clínicos e indicação de lentes de contato, a paciente não pode fazer o uso pela hipersensibilidade que apresenta na adaptação de lentes de contato.

    Surpreendentemente na retinoscopia dinâmica a paciente obteve a acuidade visual de 20/20 em ambos os olhos, na tabela abaixo podemos observar a refração da paciente.
    Tabela 2: Refração Final
Refração Final
OD plano - 5.00 X 90° 20/20 J1
OE plano - 9.00 X115° 20/20 J1

    Este relato de caso mostra que é possível o uso de óculos por pacientes portadores de ceratocone alcançando uma uma boa AV de 20/20.

    Não podemos subestimar a capacidade do ser humano em se adaptar as alterações sistêmicas ou oculares. Ressalta-se também que  a avaliação pelo profissional de saúde é de grande importância na definição do diagnóstico diferenciado, neste estudo no caso de ceratocone oval e a prescrição da correção por meio de óculos.

    O Optometrista, como profissional de saúde, tem um papel fundamental na prevenção e promoção da saúde ocular, educando e esclarecendo as comunidades sobre a importância do exame visual, ocular e prevenção, possibilitando uma manutenção da qualidade de vida do indivíduo.

Prof. Sergey Cusato Jr. O.D
Diretor do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato.
F.I.A.C.L.E Internacional Association of Contact Lenses Educators.
MBCLA British Contact Lens Association. 
MCLSA Contact Lens Society of America.
MSLS. Scleral Lenses Education Society.
MOAA Orthokeratology Academy of America.

Ketlin Hass 
Tecnóloga em optometria pela ULBRA
Pesquisadora Training do IBTPLC

Referencias 

BECHARA SJ, KARA-JOSÉ N. Ceratocone. In: Belfort Júnior R, Kara-José N, editores. Córnea clínica-cirúrgica. São Paulo: Roca; 1997. p.359-66;

CUNHA MC, LIMA ALH. Ceratocone: estudo comparativo entre pacientes adaptados com lente de contato e pacientes com indicação de transplante de córnea. Rev.Bras. Oftalmol. 1997;56(7):495-511;

CUSATO Jr, Sergey. Paradigmas e perspectivas atuais sobre o ceratocone. http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=23; 2013;

LEWS MJ, DRICHE, JR WT, STERN GA. The Clinical management of keratoconus: a 6 year retrospective study. CLAO J Arq.Bras.Oftalmol. 1994;20:194-7;

SINJAB, M.M.; Quick Guide to the Management of Keratoconus, 13 DOI 10.1007/978-3-642-21840-8_2, © Springer-Verlag Berlin Heidelberg 2012 Classifi cations and Patterns of Keratoconus and Keratectasia;

URBANO AP, et al. Influência genética no ceratocone. In: Rev.Bras. Oftalmol. 2002;61(2):73-6;

WHITCHER JP, RIORDAN-EVA P. Oftalmologia Geral de Vaughan & Asbury - 17ª Ed. – Porto Alegre: AMGH; 2011. p.140;

WILSON EW, LIN DTC, KLYCE SD et al. Topographic changes in contact lens -
induced corneal warpage. Ophthalmology Arq.Bras.Oftalmol.1990;97:734-44;

YAMAZAKI ES, et al. Adaptação de lente de contato gelatinosa especial para ceratocone. Arq.Bras. Oftalmol. 2006;69(4):557-60.




                                                                     


 

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