ADAPTAÇÃO DE LENTES DE CONTATO EM CERATOCONE PÓS TRANSPLANTE E CERATOCONE AVANÇADO
GUILHERME CASSIANO O.D e : PROF. SERGEY CUSATO JR.
American Optometric Association
lentes de contato, optometria, cuidados primarios
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Conteúdo do artigo

ADAPTAÇÃO DE LENTES DE CONTATO EM 
CERATOCONE PÓS TRANSPLANTE E CERATOCONE AVANÇADO

PESQUISADOR: GUILHERME CASSIANO O.D
   ORIENTADOR: PROF. SERGEY CUSATO JR. O.D

 

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Prof Sergey Cusato Jr B.Optom                                            Guilherme Cassiano B.Optom 



INTRODUÇÃO           

     Ceratocone é uma doença não-inflamatória progressiva do olho. Nesta condição, as mudanças estruturais na córnea, que alteram sua biomecânica - resistência e elasticidade, a torna mais fina e modifica sua curvatura normal (praticamente esférica) para um formato mais cônico. Este fenômeno de protrusão da área corneana afinada é chamado de ectasia (distensão) corneana. A principal consequência do Ceratocone é a diminuição da acuidade visual – visão - proveniente do astigmatismo irregular - distorção da imagem causada pela alteração da curvatura normal da córnea. Visão borrada, imagens fantasmas, sensibilidade à luz e presença de halos noturnos são os principais sintomas relatados pelos pacientes. (CUSATO, 2013. a).
    
     Sorbara (2012, p.1) afirma que “o ceratocone é uma ectasia corneal progressiva, tipicamente assimétrica e não inflamatória”.
     
     A patogênese desta ectasia é desconhecida, alguns sugerem que desordens e anormalidades no epitélio corneano podem estar envolvidos, bem como os ceratócitos presentes no estroma ou uma alteração relacionada à matriz extracelular. O ceratocone resulta de uma série de processos patológicos diferentes e por isso pode ser melhor definido como uma síndrome. Entretanto sua etiologia não está muito clara, apesar de muitos fatores como o atrito mecânico e exposição ao UV estarem associados a ela. (BARBARA, 2012).
     
     Fatores-chave para o desenvolvimento da doença, que muitas vezes não se manifestam e são causados por elementos ambientais e esfregação dos olhos, potencializam o ceratocone e seus danos são mais frequentes.
     
     Outra hipótese, a hormonal, é que o sistema endócrino pode estar envolvido porque o ceratocone geralmente é detectado pela primeira vez na puberdade e progride durante a gravidez. Essa teoria ainda é controversa. (CUSATO, 2013.c).
     
     O ceratocone é a principal causa de transplante de córnea em países desenvolvidos. 
     
     O tratamento clínico do ceratocone depende da severidade da doença e pode ser classificado de acordo com os valores ceratométricos em: incipiente, moderado, avançado e grave. Em boa parte dos casos de ceratocone incipientes a avançados, a acuidade visual pode ser corrigida tanto com uso de óculos quanto com lentes de contato. As lentes de contato mais utilizadas atualmente são as lentes rígidas gás permeáveis (LCRGP) por possibilitarem melhora da correção visual. Porém, existem casos em que a adaptação de lentes é mais difícil, principalmente em pacientes intolerantes ao uso de lentes rígidas, e/ou padrão de adaptação ruim, o que pode impossibilitar o uso desta modalidade terapêutica. Considerando que grande parte da população portadora de ceratocone é composta por indivíduos jovens em fase economicamente ativa, torna-se nesses casos uma tarefa muito importante a reabilitação visual.(YAMAZAKI et al, 2006) .
    
      É preciso lembrar que estatisticamente apenas aproximadamente 10% dos casos evoluem para transplante de córnea, sendo que na grande maioria dos casos se consegue controlar o problema, principalmente, por meio da adoção de lentes de contato rígidas.(CUSATO, 2013. b).
    
      A indicação de ceratoplastia penetrante tem aumentado muito nos últimos 30 anos e, atualmente, está entre as cirurgias de transplante mais realizadas. 
 
     O aumento na indicação deste procedimento se deve a alguns fatores, entre eles o aumento da faixa etária da população, melhor seleção do tecido doador e novas técnicas operatórias que permitem a realização de cirurgias em situações consideradas inoperáveis até 10 anos atrás. No Brasil a maior taxa de indicação de ceratoplastias está relacionado ao ceratocone.(CATTANI, et al, 2012).

     No transplante de córnea, a LC é indicada para correção de anisometropia e do astigmatismo regular ou irregular que restou no olho operado. Embora a técnica cirúrgica do transplante de córnea tenha evoluído para diminuir o astigmatismo e ametropia pós-cirúrgica, estes ainda constituem problemas nos pós-operatórios. A maior dificuldade na adaptação é a topografia corneal alterada na área de junção da córnea doadora com a receptora.( CORAL-GHANEM, KARA-JOSÉ, 1998).

     As lentes de contato indicadas para ceratocone pós ceratoplastia são lentes esclerais de grande diâmetro, lentes rígidas gás-permeáveis. Elas podem variar em até 14 milímetros a mais de 22 mm de diâmetro. Elas são chamados de “Scleral Lenses” por cobrir completamente a córnea e se estender até a esclera. Como é de grande diâmetro rígido e gás permeável, os desenhos das lentes possuem um sistema de classificação para descrevê-las. Muitos desses sistemas de classificação são baseados unicamente no tamanho da mesma. No entanto, também podem ser classificados com base em suas características de adaptação. As lentes corneais são suportadas exclusivamente pela córnea, e não se estendem além do limbo (a junção entre a córnea e a esclera). Lentes esclerais são sustentadas tanto pela córnea quanto pela esclera, e estendem para além do limbo. As lentes esclerais são exclusivamente para casos especiais. A adaptação dessas lentes sem a correta indicação pode induzir os olhos a danos como constrição de vasos e doenças mais severas na esclera e córnea.(CUSATO, 2013. b).

RELATO DO CASO

     Paciente do sexo feminino, 27 anos, administradora hospitalar, procurou o centro de adaptação de lentes de contato do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Tecnologia em Lentes de Contato – IBTPLC - para consulta de correção com lentes de contato.

     A Paciente chegou ao consultório para adaptação de lente especial pós ceratoplastia penetrante no olho direito e lente especial para ceratocone avançado no olho esquerdo. Seu encaminhamento ao IBTPLC se deu pela paciente não encontrar mais solução para seu caso, pois já vinha do estresse de uma cirurgia e a reincidência de sua degeneração corneana (Ceratocone) no olho transplantado. Iniciou-se então o protocolo clínico de avaliação para lentes de contato e possível correção com as mesmas, abaixo seguem os dados dos exames clínicos feitos pelo paciente em sua consulta no IBTPLC.


EXAMES CLÍNICOS

     Iniciou-se então a avaliação clínica da paciente, abaixo seguem os dados:

Quadro 1: Resultados obtidos no primeiro exame clínico.


EXAMES CLÍNICOS

OLHO DIREITO

OLHO ESQUERDO

ACUIDADE VISUAL

PERCEPÇÃO DE LUZ

PERCEPÇÃO DE LUZ

SCHIRMER I

20mm / 5min

20mm / 5min

BUT

8 seg

8 seg

BRUCKNER

POSITIVO PARA CERATOCONE

POSITIVO PARA CERATOCONE

CERATOMETRIA

46.40 / 49.72 X 36º

48.20 / 50.77 X 163º

MORFOLOGIA

CERATOCONE

IRREGULAR

CERATOCONE OVAL

 ACHADOS BIOMICROSCÓPICOS

Olho Direito:

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                     Figura 1: Ceratoplastia penetrante observada na iluminação direta.

     Com uma iluminação direta aumentada 16x, pode observar as suturas em 2 posições, conforme figura 2.

 

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                  Figura 2: Suturas em 2 posições observadas com aumento de iluminação.

EXAME DE TOPOGRAFIA

     Olho Direito
     No exame de Topografia do OD, o Mapa Axial resultante apresentou ceratocone secundário pós ceratoplastia penetrante com Padrão Ampulheta caracterizando uma Distrofia de córnea - Ceratocone Irregular, conforme figura 3.

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      Figura 3: Mapa Axial com ceratocone secundário pós ceratoplastia penetrante. Padrão Ampulheta. (Distrofia de córnea- Ceratocone Irregular).

     Olho Esquerdo:

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                      Figura 4: Mapa Axial com distrofia de córnea: Ceratocone Oval.

     PARÂMETROS DA ADAPTAÇÃO DE LENTES DE CONTATO

     Tipo de lente:

     Lentes de Fifilcon gelatinosa e BOXO dentro dela:


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                      Figura 5: Demonstração da lente adaptada em PiggyBack

 

PARÂMETROS DO PACIENTE:


     No quadro 2, apresentam-se os valores de referência para adaptação das lentes de contato ao paciente.

Quadro 2: Parâmetros do Paciente.

PARÂMETROS

OLHO DIREITO

OLHO ESQUERDO

DHIV

12,2

12,1

CB – LCG

7,4

7,6

Ø – LCG

14,5

14,5

Ø – Corte

10,2

10,2

Ø – LRGP

9,2

9,2



LENTE ADAPTADA

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Figura 6: Lente adaptada olho Direito : Lente Fifilcon com Boston XO dentro. (PiggyBack) – pós ceratoplastia


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Figura 7: Lente adaptada no olho esquedo: Adaptação de Lente Boston XO em Ceratocone Avançado.


CONCLUSÃO


     Sabendo-se que o ceratocone é uma enfermidade não inflamatória degenerativa progressiva, isto demonstra que em alguns casos pode ocorrer a perda da córnea sendo necessário a realização de transplante, e que mesmo após este procedimento, nada garante que o paciente volte a ter uma vida normal sem mais apresentar nenhum sinal nem sintoma. Nesses casos, como o ocorrido neste caso clínico, em que a degeneração retorna após o transplante, o papel do especialista em lentes de contato especial é destacado, pois este profissional com primazia consegue acompanhar um caso difícil como o mencionado e recuperar a capacidade de visão, sentido este importante para o bem estar físico, emocional e social do paciente.

     Após realizado todos os testes necessários para a verificação da possibilidade do uso das lentes de contato, o paciente fez um teste de adaptação com as lentes e se surpreendeu com o resultado, pois com este modelo de adaptação extremamente especial e de difícil manejo, foi capaz de atingir a meta visual considerada normal:

     Acuidade Visual

Olho Direito:          20/20

Olho Esquerdo:     20/20

     Mais uma vez o Instituto Brasileiro de Tecnologia e Pesquisa em Lentes de Contato provou ser um centro de excelência tecnológica e com profissionais capazes de resolver casos que para muitos seriam impossíveis a reabilitação visual.

     A paciente sentindo-se satisfeita e confiante com suas novas lentes foi orientada a manter retornos periódicos ao IBTPLC pois trata-se de um caso especial e merece atenção continuada.

     Em relação a adaptação PiggyBack usada neste caso, a mesma se provou de excelente escolha garantindo conforto superior as outras adaptações tradicionais.

Prof. Sergey Cusato Jr. B.Optm, Msc 

Diretor do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato.

F.I.A.C.L.E Internacional Association of Contact Lenses Educators.

MBCLA British Contact Lens Association. 

MCLSA Contact Lens Society of America.

MSLS. Scleral Lenses Education Society.

MOAA Orthokeratology Academy of America.


Guilherme Cassiano B.Optom

Bacharel em Optometria UnC - Brasil 

Pós Graduado Optometria Avançada UBC - Brasil

Especializando em Eye Primary Care e lentes de Contato pelo IBTPLC 

Membro do Instituto Brasileiro de Treinamento e Pesquisa em Lentes de Contato

Membro do Conselho Brasileiro de Óptica e Optometria.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARBARA, A. Textbook on keratoconus: New Insights. 2012.

CATTANI, Silvana. Et al . Indicações de transplante de córnea no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Arq. Bras. Oftalmol. vol.65 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2002.

CORAL-GHANEM, Cleusa, KARA-JOSÉ, Newton. Lentes de contato na clínica oftalmológica – 2.ed. – Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1998.

CUSATO, Sergey Jr. Paradigmas e perspectivas atuais sobre o ceratocone. Instituto Brasileiro de Pesquisa e Tecnologia em Lentes de Contato. São Paulo. 2013. Disponível em:  <http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=23>  acesso em 03 de agosto de 2014a.

______. Lentes Esclerais (Scleral Lenses) Adaptação pós transplante penetrante recorrente. Instituto Brasileiro de Pesquisa e Tecnologia em Lentes de Contato. São Paulo. 2013. Disponível em: 

<http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=29 > acesso em 03 de agosto de 2014b.

______. Ceratocone Avançado. Instituto Brasileiro de Pesquisa e Tecnologia em Lentes de Contato. São Paulo. 2013. Disponível em: <http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=26>  Acesso em 03 de agosto de 2014c.

SORBARA, L. Correction of Keratoconus with GP Lenses, 2012.

YAMAZAKI ES. et al. Adaptação de lente de contato gelatinosa especial para ceratocone. In. Arq.Bras. Oftalmol. 2006;69(4):557-60.


 

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